Fevereiro 07, 2010

A pele

Depois de anos relutante com o fato d’ele não usar perfume, descobriu algo novo, nele. O cheiro da pele. Gostava de dormir abaulada em suas costas, embora achasse que a pele em contato com a sua era mais áspera do que julgava necessário. Entretanto, admirava a cor alva, a extensão comprida e a largura, ideal para se aconchegar. Apreciava a temperatura do corpo. Sempre esquentava seus dedinhos gélidos do pé contorcidos no tendão de Aquiles dele. Conhecia bem a textura da sola, da boca, das mãos, dos nós dos dedos e da nuca com seu facho curto de cabelos castanhos. Era tão devota à barba escura e grossa que só pelo toque adivinhava há quanto tempo a lâmina havia passado por ali. Gostava da maciez dos pêlos púbicos, dele, e da forma rente como aparava. Sentia-se arrepiar com o hálito que exalava enquanto dormia. Sim, era bom e cálido. Lembrava especiarias. A hora do sono era sua favorita. No escuro curtia toda uma gama de sensações: sopro proveniente da respiração, texturas, formas, toques e excitações. Mas, para o cheiro da pele, nunca havia se atentado. Isso, até a noite passada, enquanto curtia insônia com os dedinhos enroscados no tendão de Aquiles dele, protegendo-se do ar condicionado. Já havia brincado de aspirar o ar de sua boca, alisar seu corpo carinhosamente, afagar os cabelos e roçar a barba. Nada trazia o sono. Nada trazia algo novo. Até, num ato desses sem pensamento prévio, impulso instintivo e inquietude, começou a cheirar-lhe a pele enquanto dormia. No início, o fez de forma leve, explorando as dobras, as concavidades, as linhas, as superfícies lisas, as peludas e partes erógenas. Ficou petrificada. Intensificou a descoberta e queria lhe roubar o cheiro. A pele. Teve vontade de morder, lamber, arranhar, lambuzar, amar, gozar. Acordou-o em espanto enquanto, voraz, arrancava-lhe nacos de carne suculentos de sangue e engolia-os. Descobrira a essência do amor.

Dezembro 28, 2009

A boca

Já faz tempo e ela não parou de se perguntar. Até cansou, mas não acuou. Não que ele significasse tanto. Não. É que ela gosta de ter respostas para toda e qualquer indagação. Sobretudo, quando parte de si mesma. A bem da verdade, ela faz questão é de ter o controle sobre o incontrolável. Adora zappear. Eu me intrometo para dizer que o que ela aprecia, realmente, são os jogos. É viciada. E, não, ele não foi tão expressivo, assim. Mas, fato é que o tal fugiu às regras do jogo. O desato da relação não foi estratégico. Evadiu de suas expectativas. Uma vez que lançou mão de usar abusivamente da racionalidade, viu-se sem quês nem porquês. Sem eira bem beira. Sem o conforto de questionar. Mostrou-se incolor tudo que era para ser novo e empolgante. Não tinha desafio. Era pular da rotina das manipulações para, creia, algo previsível sem o frescor do improviso. Era contraditório. Chato. Ela queria praia; ele o sono. Ela queria sacanagem; ele amorzinho. Ela queria mais; ele estava cansado. Ela queria ser chamada de puta; ele recitava poemas dóceis. Ela queria uma história visceral; ele calma. Ela queria gritar; ele sorria terno. Ela chorava de angústia; ele de contentamento. Ele a achava completa. Ela nada queria dele. Ele era feliz; ela não. Um casal. Mandou para as cucuias toda a segurança que poderia ter e não quis mais o tal. Aquilo não era vida. Sentia falta da sensação de mãos suadas e trêmulas. Desejava palpitar. Estava morta. Queria ser comida, não degustada. Queria discordâncias, não aceitações exacerbadas. Queria de um tudo, tudo. Não era do tipo blasé, você já deve ter percebido. Pois deu um chute com o pé esquerdo – é canhota – e foi se fartar dos sabores das intemperanças da vida. Feliz, agora; tempos depois, descobriu a bendita resposta da tal indagação do porquê de tantos desencontros e estranhamentos. Ela não gostava da textura da boca do tal. Tinha um aspecto até bonito, mas em contato, identificava uma capa gelatinosa e esbranquiçada. Um limo incômodo que contaminou todo o depois do primeiro beijo. A azedou. O amor morreu pela boca, antes mesmo de aflorar.

Dezembro 17, 2009

Cotidiano

Segunda-feira entrei em um emprego novo. Agora sei bem mais que bulhufas sobre planos de saúde, autogestão e comunicação interna. Terça-feira voltei a fazer musculação. Agora é à noite. Descobri que odeio exibir meus músculos ínfimos entre o formigueiro que é a academia nesse horário. No mesmo dia, descobri que detesto acordar e logo ir trabalhar. Quarta-feira, 5h50 da manhã. Celular toca o alarme. Hora de acordar para ir à aula de spinning. Descubro que ficar controlando o quadril em cima daquelas bicicletas é além de dores na bunda, na virilha, na coluna e nas pernas. Dá bom humor. Hoje, descobri que odeio quando me dá vontade de fazer cocô enquanto estou trabalhando. Me tira a concentração e evoca uma série de exercícios de contração. A coisa que mais aprendi durante a elaboração do Panela Literária é que cada dia é um dia – creia-me, isso é nada redundante. Por mais piegas que pareça, é um mundo que se descortina a cada manhã. Todo santo dia, ao colocar o direito ou esquerdo pé no chão, é um novo universo que vai enfrentar. São ausências que vai descobrir. São amores que vai ter de deixar ou agarrar com unhas, dentes e todas as doçuras e sacanagens que couber no pacote. São decisões que vão ter de ser tomadas, ou ignoradas. Cada data riscada no calendário é uma oportunidade de tomar sua história pela mão e conduzi-la. São coisinhas aqui e acolá, que só gente bacana com olhar treinado para enxergar, que estrutura esse um tudo que somos. Cotidiano requer respeito. É singular como nós gostamos de ser, ou ao menos pensar que assim é. Cotidiano, de Chico Buarque, é o toque do meu celular. É só uma lembrança agradável para que eu não esqueça, a cada ligação, que não se deve fazer todo dia tudo sempre igual.

Setembro 27, 2009

Ciclos

Há um rombo na boca do estômago. Escolhas são rombos, são perdas. Escolhas movidas pela falta de crença arrancam pedaços. Vivemos, a cada escolha, nos despedaçando por aí. Sim, decisões podem ser benéficas, mas sempre se perde algo. Sempre! Escolher é trabalhar o tempo todo para se reconstruir. Reconstruir requer determinação, calma, persistência e segurança. Escolhas requerem persistência, para que não se volte atrás, ou, também, para que não se estagne no ponto de partida, por puro medo do caminho desconhecido. Por puro receio da decepção. Estagnar é um chamariz para quem se sente sem garra e gás. Há tanto exigindo da gente. Há tanto faltando... Há um rombo, dois, três, mais. Há um ciclo, sem quebra. Escolhas são rombos, são perdas. Escolhas movidas pela falta de crença arrancam pedaços. Vivemos, a cada escolha, nos despedaçando por aí. Ciclos, escolhas, perdas, rombos. Ciclos.

Maio 28, 2009

Orgia

Deito em minha cama e dano a tagarelar com os Vitor's. O cansaço é tanto que adormeço, sem ver. Durmo falando, acordando, rolando em cima do Graize ou do Lopes, nunca sei; mas sempre é com o último que comigo conversou. Acordo e corro para pegar o ônibus. A rotina espera, e, Benjamin também, que me entreabre a boca com sua loquacidade. Bobo nada, se aproveita disso e me beija, beija. Arranca-me os beiços esse tal de Benjamin.

Chego à agência e, apressada, abro minha caixa de e-mail embonecada do Gmail. A ânsia é enorme:
Será que o nome de Sérgio figura na lista de mensagens enviadas? Sérgio é uma coisa toda virtual que mexe com meus hormônios. Ele é o bam bam bam lá de sua área . Se faz de rogado, mas, não resiste e me responde, me felicita. Enquanto Sérgio não dá as caras, me faço de difícil para Mara, mas ela não resiste e, no fim da tarde, minha janela do Gtalk pisca -- é ela! Como quem não quer nada, me chama, simples. Como gosto dos palavrões na boca de Mara em meio a toda delicadeza profana que expele. Mara provoca em mim uma vontade enorme de mastigar, abocanhar.

Mas, no fim das contas, quem me come mesmo é Viviane. Como o tempo faz, ela me pega à força e por trás. Devora. Com ela não tem nove horas, nem essa frescura de que não é permitido mulher com mulher. Não teve jeito, acabei me rendendo a seu encanto agressivo, lúcido e passional. Gosto de Viviane, mas ainda vou me entregar ao Tom, a Bernadette, ao Reinaldo, a Elisa, ao Casé, ao Caê, ao Silvio, ao Truman, ao Raúl e a todos mais que vierem a fazer parte dessa orgia excitante, desse swing literário que será meu TCC.


***

p.s.: pessoas, esse tal de tcc me consome... o blog deve ficar assim, adeusdará... mas, vez em quando, darei o ar da graça, prometo!

Abril 09, 2009

Caquéticos

To feliz, aliás, bastante feliz. Daquela felicidade que até amedronta, de tão surreal. Parece não palpável, o que causa aquele medo de que ela esmoreça. Mas, para vivermos nossa felicidade, magoamos outras pessoas. O ser humano é, em essência, egoísta. Mau por instinto. Perverso por natureza. No fim das contas, não existe ninguém bom, honesto, sincero e generoso o suficiente. O ser humano nunca é suficiente. Sempre falta. O muito, continuamente, é pouco, pouquíssimo, quase nada.

Para vivermos o que nos satisfaz, machucamos um aqui e acolá, repito. Lei ignorante da sobrevivência – ou felicidade? A velha máxima diz que se dá mal quem só olha o próprio umbigo. Acontece que, se não o olharmos, ninguém o enxergará. Cada qual preocupado consigo mesmo, com seus momentos, com suas esperas e suas dúvidas. Está todo mundo em luta para estar de pé. Vivemos, todos, o egoísmo. Sobrevivemos, assim, caquéticos.

Março 26, 2009

I-nes-que-cí-vel

Enquanto eu caminhava lentamente, vidrada no ponteiro do relógio, torcendo para que ele, logo, girasse os 180º esperados e acabasse com a meia hora que prometia ser de dura espera, vi um tumulto começar.
Estava na fila, pisando onde velhos sambas levantaram arquibancadas, esperando minha vez de entrar, quando, lá de longe, um som de guitarra sendo afinada soou, em pleno escuro. Correria, gritaria, euforia, muito ia, ia, ia! Ao invés de compassos ritmados na avenida mundial do batuque, o que se via eram All Star’s gastos que socavam o chão, ora saltitantes, ora acelerados, ora extasiados, ansiosos por chegarem logo para fazer coro à multidão.
Com meia hora de antecedência, um velho som conhecido começou a ser entoado, o que fez com que cada pelinho do meu corpo eletrizado, ouriçasse. Meus pés apertaram o passo. Minha mão agarrou firmemente a dele, que me fazia companhia. Enquanto as luzes se acendiam, em meio à música, revelando rostos conhecidos, eu engolia emudecida a sensação vibrante, para depois, já em meio a multidão emocionada, explodi-la junto com o refrão “deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz! deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz!”.
E, com direito a sambinha e tudo mais, o Los Hermanos abriu, na Apoteose, a noite que o Radiohead fechou, consciente, de que era inesquecível.

Março 03, 2009

Confidencial

essa é a grande verdade:

perdemos sempre.



(Fernando Sabino)

Fevereiro 09, 2009

Às avessas

Enquanto ela lhe dizia palavras doces e sinceras, numa sonata melódica que esvaía de sua boca; ele deixava escapar algumas lágrimas cortantes em sua face. Ela, encorajada com a reação aparentemente afetuosa dele, exprimia seus planos mirabolantes, suas mudanças, o seu bem-querer tão nítido naquele momento. Ele apenas sorria, debilmente, enquanto ouvia, e apenas ouvia, pois era incapaz de emitir qualquer nota, qualquer reação diferente daquela. A esfera emotiva era o contentamento dela, a tristeza dele. Suas lágrimas eram devido a sua angustiosa incapacidade de expelir coisas tão belas de dentro de si. Não, não era um ser humano tão bom, mas não chegava a ser mau. Enquanto ela se virava a dormir, com uma leve expressão de contentamento no rosto, ele, em meio ao seu silêncio, enterrava a face no travesseiro e chorava quase a sufocar, caindo em si que a felicidade dói. Palavras bonitas e sinceras doem. O preço da leveza, muitas vezes, é insustentável.

Fevereiro 06, 2009

Tirando o atraso


Visto que to em dívida com alguns amigos que me indicaram para fazer meme’s, e também, que presentearam o Conjunções com um selo (oba!), venho aqui tirar o atraso.

A Marília, do Ainda Podia Ser Pior, me passou há trocentos anos... oquei, em novembro, um meme que achei bem bacana, e agora sim vou fazer

As regras consistem em:
1.º - Disponibilizar uma foto nossa; (bah!)
2.º - Escolher um cantor ou banda;
3.º - Responder às questões com músicas desse;
4.º - Passar o desafio a quatro bloggers.

Donna, junho de 87

Lá vamos nós:

1) És homem ou mulher? “Dinossauros”
2) Descreve-te: “Um móbile no furacão”
3) O que as pessoas acham de ti? “A flor e o espinho”
4) Como descreves o teu último relacionamento: “Debaixo do sol, morrendo de frio”
5) Descreve o estado atual da sua relação: “Cura da loucura”
6) Onde querias estar agora? “Oásis”
7) O que pensas a respeito do amor? “Meu pensamento não quer pensar”
8) Como é a tua vida? “Contrasenso”
9) O que pedirias se pudesses ter só um desejo? “Tudo novo de novo”
10) Escreve uma frase sábia: "Admito que perdi”

Músicas do querido e ótimo Paulinho Moska.

***


O Zema, o quase-jornalista mais apaixonado por São Luís, estreou comicamente em meme’s e me repassou. Borá lá, Zeminha:


Instruções
: 1 Colocar o link de quem te indicou para o meme. 2 Escrever estas regras
antes do seu meme pra deixar a brincadeira mais clara. 3 Contar os seis fatos aleatórios sobre você. 4 Indicar seis blogueiros para continuar o meme.

Devido o meu humor nessa semana, vou falar de coisas e situações que odeio, capisce?
(E dá licença que hoje não to a fim de conflitos mundiais e coisa e tal. Meu umbigo ta maior que tudo, hoje. Culpa da TPM, juro!)


1 – Odeio gente mal educada. Oquei, todo mundo diz que odeia. Mas, confesso, é uma coisa que me tira do sério. Que me faz levantar de estabelecimentos, sair de lojas de cara amarrada, e sim, devolver os maus modos ao fulanozinho com respostas duras e bochechas rosas.

2 – Odeio motorista (geralmente de ônibus, é incrível!) piscando farol para mim enquanto
atravesso a faixa. Oh, jesuscristim, isso quando eles resolvem fazer a coisa sincronizada, piscando o olho e o farol, numa bizarrice só. Nessas horas, lá vai a Donna, passando de cabeça baixa de vergonha e praguejando feito macho pela rua.

3 – Odeio mulher fresca. Sabe essas que falam mole, dando espécie de voltas da dicção e batem o salto fino enquanto estão com raiva. Tenho lá minha feminilidade, mas frescurite aguda, não, não rola. É isso, odeio mulher meiga.

4 – Por falar em salto alto... odeio barulhos quando estou vendo filmes, principalmente os constantes. Essa semana estava assistindo a Foi apenas um sonho (alguém
me explica o porquê do título que nada tem a ver com o excelente filme?), e uma infeliz não parava de bater o salto do scarpin de zebrinha dela. Sim, vi que era de zebrinha porque, antes disso, ela estava com os pés pra cima na cadeira. Então, foi preciso um esforço duns cinco minutos olhando para a cara da mal educada para ela se tocar. Santa paciência!

5 – Odeio quando leio pessoas instruídas escrevendo “a gente” junto, “tudo haver”, ao invés de “a ver”; tipo “Globo e você, tudo haver”, e a letra cê com cedilha, tipo "moçinhas". Quase tenho um infarto. Sorry, é mais forte que eu!

6 – Odeio me sentir sufocada e limitada, seja qual for a situação.

***

E, pra terminar, a me indicou pra um meme tamén. E com ele, um selo muito do fofo!

Lá vai:

Regras:
1 - Exiba a imagem do selo “Olha Que Blog Maneiro”.
2- Poste o link do blog que te indicou: Não!!
3- Indique 10 blogs de sua preferência.
4- Avise seus indicados.
5- Publique as regras.
6- Confira se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.
7- Envie sua foto ou de um(a) amigo(a) para olhaquemaneiro@gmail.com juntamente com os 10 links dos blogs indicados para verificação. Caso os blogs tenham repassado o selo e as regras corretamente, dentro de alguns dias você receberá 1 caricatura em P&B.
8- Só vale se todas as regras acima forem seguidas.


Entãooo, para todos esses meme’s e o selinho, passo a bola para:

Jacket, Feio, Zema (vai ter que fazer os dois, viu?! ;p), Ivis, Karoll, Meu Beeimmm (que raramente escreve!), Marília, Éden e Éder (não, eles não são uma dupla, ho ho).

Beijofui!